Eu acho que vi um gatinho
SiDNEY GUSMAN, em HQ PRESS, Sandman
#18, 1991
Sidney Gusman é jornalista especializado em quadrinhos
e editor-chefe do site UNiVERSO
HQ
sgusman@universohq.com
Os gatos e felinos, em geral,
sempre freqüentaram assiduamente as Histórias em quadrinhos.
A beleza, a graça e o mistério desses animais já desfilaram
por um número enorme de páginas. Seja agindo como humanos, caçando
ratos ou como simples coadjuvantes, eles foram conquistando seu
espaço e hoje muitos se tornaram mega stars das HQs. Um dos primeiros
"trabalhos felinos" foi Mr. Jack, de
James Swinnerton. Criado em 1902, o personagem, um gato casado,
mas que não dispensava aventuras amorosas extraconjugais - sofreu
por muitos anos (a tira acabou em 1953) a censura da King Features
Syndicate, devido aos seus hábitos vulgares.
No início do século, precisamente
em 20 de junho de 1910, o New York Journal publicou a tira The
Dingbat Family (mais tarde o nome foi mudado para The
Family Upstairs), de George Herriman, onde dois personagens
secundários acabaram roubando a cena. Tratava-se de uma gata e um
rato - depois batizado de Ignatz -, cuja principal diversão era
dar tijolada na cabeça da felina. Aliás, foi Ignatz que, em agosto
de 1910, a chamou pela primeira vez de Krazy Kat.
Baseada em temáticas inteligentes, a dupla tornou-se um sucesso
e, em 1943, Krazy Kat ganhou sua própria tira diária.
Até hoje esse trabalho é considerado uma das melhores HQ's de todos
os tempos. As peripécias dos dois ainda pintaram em livros, desenhos
animados e num balé adaptado por Jonh Alden Carpenter. Suas aventuras
terminaram com a morte de Herriman em 1944, pois ninguém continuou
sua obra.
O papa dos quadrinhos underground,
Robert Crumb, também deu sua contribuição. Fritz, the Cat
surgiu em 1959 no Crumb Brother's Almanac, mas os leitores
só o conheceram em 1965 na história Teenage Girl Pigeon,
publicada na Help. Fritz era um gato pra
lá de libidinoso. E curtidor de sexo e drogas. Em 1972, Ralph Bakshi
e Steve Krantz realizaram um desenho animado com o personagem. Crumb
não gostou (chegou a entrar na justiça para retirar seu nome dos
créditos) e desenhou uma história onde, após rejeitar uma avestruz,
o gato foi assassinado pela ave desiludida.
Em 1978 apareceu pela primeira vez um gato
que se tornaria um dos maiores fenômenos de marketing do mundo:
Garfield, de Jim Davis. Ele é cheio de peculiaridades
e extravagancias. Odeia segundas feiras; more de ciúmes do filhote
Nermal; adora comer na cama; vive aprontando com
seu dono, Jon, e com o cão Odie; e, principalmente, e apaixonado
por lasanhas.
Nas paginas de American
Flagg!, quando o protagonista Reuben Flagg não estava combatendo
o crime como um ranger, nem atuando nas diversas camas femininas
a que dava assistência, ele gastava o seu tempo conversando com
Raul, um gato falante que pode ser considerado
seu melhor amigo. Entre as preferências de Raul
está o programa Sexo entre as Espécies.
Diversos outros gatos ainda
desfilaram pelos quadrinhos. Frodo, o inseparável
companheiro de Moonshadow. Firkin, de Hunt Emerson,
"o maior especialista em hábitos humanos". Os Smurfs jamais
tiveram sossego com Cruel, o assistente de Gargamel.
Fido, o gato dos Freak Brothers, de Gilbert
Shelton era chegado numa erva diferente.
Omaha, The Cat
Dancer, é uma série da Kitchen Sink Press onde só
há gatos humanóides. Nas histórias de Mutt e Jeff, de Al Smith,
Esmeralda era a felina de estimação de Cícero,
o filho de Mutt. O iugoslavo Enki Bilal, em La Foire Aux Immortels
e La Femme Piège (no Brasil, A Feira dos Imortais
e A Mulher Enigma), fez com que Gogol
fosse o único, além do astronauta Nikopol, a sentir a presença dos
deuses egípcios.
O desenhista Laerte criou na
sua tira O Condomínio um casal de gatos
(ele branco e ela preta) que apronta mil e uma.
Spooky, de
Bill Holman, surgiu em 1935 e jamais apresentou características
humanas. Dos estúdios de Maurício de Souza vem Mingau,
tão faminto quanto sua dona Magali. No Quartel Swampy, lar do Recruta
Zero, para contrapor as diabruras do cão Otto, foi criada Bella.
Snoopy vive sendo atormentado pelo gato do vizinho
que, apesar de nunca aparecer, sempre deixa sua marca. Ron-ron,
da Disney, sempre bagunça a vida do Peninha. Em Squeak, the
mouse (publicado pela Animal, da VHD diffusion), do
italiano Massimo Mattioli, depois de sangrentas perseguições, uma
curiosidade: o gato vence o rato. Outra fonte inesgotável da "criação
felina" são os desenhos animados. Deles saíram muitos gatos
para os quadrinhos. O primeiro foi o Gato Felix,
de Pat Sullivan, que foi criado em 1917 e estreou nas HQs em 1923.
Devido ao seu sucesso mereceu comentários como o do acadêmico francês
Marcel Brion: "Felix não é um gato, ele é
o gato".
Em Alice no País das Maravilhas,
de Lewis Carroll, além dos felinos que a garota possui, o Gato
Risonho foi um dos personagens mais carismáticos.
O Gato Corajoso era uma paródia de Batman.
Os estúdios Disney deram vida
a outros bichanos, e entre eles podemos citar o eterno inimigo de
Mickey, João Bafo de Onça, que mais parece um cachorro;
os irmãos Si e Ão, de A Dama e
o Vagabundo; Fígaro, o gato do Gepeto, em Pinóquio;
e a obra gatófila Aristogatas, onde Thomas
O'Malley atacava como crooner de uma jazz band
felina composta por Rei gato (trompete), Cicillo
(acordeão), Ringo (violão) e Ching Ming
(bateria), para encanto de Duquesa e seus filhotes
Berlioz, Marie e Toulouse.
E quem ano se lembra de Manda
Chuva, Batatinha, Espeto, Gênio e Chuchu? Essa trupe de
felina de Hanna e Barbera atazanava a vida do Guarda Belo. Das animações
de H&B ainda surgiram vários gatos como Zé Bolha,
parceiro do rato Juca Bala; a turma da Gatolândia; Chuvisco,
sempre correndo atrás de Plic e Ploc. China, o
fiel ajudante de Hong Kong Fu; Bu, o gato fantasma
de O Fantasminha Legal; o detetive Olho
Vivo; Bacamarte, que não dava trégua a
Chumbinho; Jambo, o companheiro de Ruivão e a série
Missão Quase Impossível, vivida apenas por felinos.
Há ainda imitações como Heatcliff (Lorde
Gato, no Brasil), uma espécie de imitação do Garfield;
e Katnip baseado em Tom (assim
como seu coadjuvante Herman o foi em Jerry).
Mas alguns gatos alcançaram
o estrelado, casos de Tom (criação conjunta de
Fred Quimby, William Hanna e Joseph Barbera para os estúdios MGM),
que se tornou famoso em companhia de seu antagonista Jerry; e Frajola
(Silvester no original), criado por Friz Freleng
para a Warner Bros., imortalizado graças à frase dita pela sua vítima
preferida, o canário Piu-Piu: "Eu acho que vi um gatinho!"
Se formos falar em outros
felinos, a relação cresce mais ainda. Kimba, O
Leão Branco, de Osamu Tezuka. O tigre de pelúcia Haroldo,
da tira Calvin, de Bill Watterson. O Leão da Montanha,
com suas "saídas bidirecionais". A sempre engraçada Pantera
Cor-de-Rosa. O playboy Trapaleão. A onça
Galileu da turma do Pererê de Ziraldo. O Leão
Lippy, que vivia ouvindo as lamúrias da hiena Hardy. Tigrão,
um dos amigos do urso Puff. O gatossauro dos Flintstones.
O tigre Janghal Khan e a pantera Baguera,
das aventuras de Mowgli. Bubastis, o animal de
estimação de Ozymandias, em Watchmen. Brutus, o
leão medroso do desenho Os Mozzarellas. Zabu, o
dentes de sabre de Kazar. E muitos outros.
Os
humanos imitando os felinos
Nas
Histórias em Quadrinhos vários humanos têm poderes ou agem como
felinos.
A mais famosa, sem dúvida, é Selina Kyle, conhecida
também por Mulher-Gato, a sexy inimiga/amante de
Batman. Sob o nome de Gata Negra já atuaram duas
personagens: a primeira foi criada por Al Gabriele, na década de
40, e a segunda agia como ladra até tornar-se uma das namoradas
do Homem-Aranha. O mesmo aracnídeo enfrentou um vilão chamado Homem-Gato,
que pertencia a uma quadrilha composta por seres híbridos. Oedi,
o parceiro de Dreadstar, é o último sobrevivente de um povo-gato.
O grupo intergalático Os Corsários também tem sua representante
felina: Hepzibah.
E os nomes não param por ai.
Tigresa nasceu das experiências do Alto Evolucionário.
O Pantera Negra, membro dos Vingadores e líder
dos Wakanda. Coadjuvando nas aventuras do Homem-Aranha já apareceram
o Tigre Branco, o Puma e o selvagem
Dentes de Sabre. Na Itália em 1948, Giam Giacomo
Delmasso (roteiros) e Enzo Magni (desenhos) criaram Pantera
Bionda, uma heroína que exibia certo erotismo em suas histórias.
O Tigre de Bronze faz parte do Esquadrão Suicida.
Na década de 40, o Pantera Vermelha, de Taylor
Martin, enfrentava inimigos na selva. Thun, o príncipe
dos homens-Leão, tornou-se o primeiro amigo de Flash Gordon no planeta
Mongo. O ex-pugilista Ted Grant era o Pantera,
integrante da Sociedade da Justiça, mas depois de sua morte em Crise
nas Infinitas Terras, a jornalista Yolanda Montez assumiu a identidade.
E no Brasil há Othan, O Leão Negro, escrito por
Cynthia Carvalho e com desenhos de Ofeliano de Almeida.
Homenagem
aos gatos
Talvez
um dos motivos dos gatos serem tão mencionados nos quadrinhos
seja o de diversos autores terem e adorarem esses animais. Nesse
rol encontram-se nomes famosos como Jim Starlinh, Neil Gaiman, Jean
Van Hamme, Moebius, Milo Manara, Howard Chaykin e Katsuhiro Otomo.
Há também algumas obras que
prestam verdadeiras homenagens a esses felinos. Um dos melhores
exemplos é Os Olhos do Gato, (publicado
pela Martins Fontes) de Moebius e Jodorowski. Em um dos trabalhos
mais críticos ao nazismo, Maus, de Art Spiegelman, os alemães
são retratados pelos gatos e os Judeus pelos ratos.
Na própria revista de Mr. Sandman
os "bichanos" já demonstraram mais de uma vez o seu lado
misterioso. Além da história Sonho de Mil Gatos,
no número 1 Lorde Morpheus aparece aos olhos de Alexander Burgess
como um gato preto. A publicação espanhola Caior,
em sua 69a edição, dedicou 10 páginas para a história Slowburn,
onde a dupla Gotlib (argumento) e Franquín (desenhos) retratou de
forma engraçadíssima uma cópula felina. No Brasil, o fanzine Tira
Ilustrada, editado por Patrícia Medina, em sua edição inicial
realizou um competente apanhado de 46 felinos dos quadrinhos. Mas
a obra mais significativa é Entre Gatos,
da Norma Editorial. Trata-se de um portfolio de 74 páginas desenhadas
por diversos artistas europeus, como Franquín, Hanquet, Juillard,
Frank, Rossi, Cabanes e outros.
Na
realidade, os gatos são personalidades assíduas em todas as formas
de arte.
No cinema existem exemplos como Olhos de Gato
de Stephen King, e a Marca da Pantera,
com a deslumbrante Natassja Kinski e com a música Putting Out
Fire (Cat People's Theme), de David
Bowie, na trilha sonora. Ainda no campo musical há The
Year of The Cat, de Al Stewart. Entre as citações
literárias encontramos a conhecidíssima fábula O Gato de
Botas, O Gato que Veio para o Natal,
de Cleveland Amory, e o interessante O Livro das Maldades
(Para os que Gostam de Animais), de Patricia Highsmith,
onde, no capítulo A Maior Presa de Ming,
um gato mata o namorado de sua dona. As homenagens são inúmeras
e multiplicam-se por várias áreas. E ainda existem pessoas que consideram
os gatos como "mensageiros de má sorte". Lamentável equívoco.
Quando esses animais serão realmente compreendidos? Quem sabe? Talvez
demore sete vidas.
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