|
|

DENNiS
D. do CADERNO
MÁGiCO
Era uma
vez um gato preto que se chamava Donatello. Não podemos dizer que
gatos tenham dono, porquanto os felinos são uma categoria muito
altiva de animais, altiva demais para se deixar pertencer aos humanos.
Então diremos que Donatello tinha dois mantenedores: o velho poeta
Álvaro de Hermione e sua esposa, Geraldina Penna Verde de Hermione.
Gatos
que moram com poetas desenvolvem atitudes "literárias";
são mais do que bichos, são praticamente personagens. Para
não contrariar essa regra, Donatello tinha uma característica
única, muito especial, que o distinguia dos demais bichanos: Donatello
era um gato que ria! Ou que parecia rir, pelo menos.
Um dia, quando Donatello ainda era um filhotinho, a mulher do poeta entrou
esbaforida na cozinha. Trazia nos braços muitos sacos de compras,
de onde se viam emergir penachos verdes de cenouras, talos de rabanetes,
maços gordos de couves, algumas espigas de milho... Foi o tempo
de Donatello botar os olhos em Geraldina... para começar a emitir
um chiadinho fino que, pouco a pouco, assumiu a sonoridade de um riso
sincopado. Algo assim: "hi-hi-hi-hi-hi-hi-hi"! A mulher do poeta
fez cara de espanto, acabou tropeçando e todos os sacos de compras
caíram ao chão. Que balbúrdia!
Passados alguns
dias, Álvaro de Hernione, em pessoa, levou Donatello ao melhor
veterinário da cidade. O clínico, depois de um exame bem
longo, concluiu que o tal riso do gatinho se devia a um incomum estreitamente
do septo nasal, mas este desvio em nada prejudicaria a vida do animal.
Devidamente tranqüilizado, o velho poeta voltou a casa.
Como era época
de eleições, Álvaro resolveu fazer uma brincadeira.
Colocou Donatello diante das fotografias dos três principais candidatos
e fez a pergunta: "E então, meu gatinho ridente, qual deles
será o vitorioso?" O bichano observou atentamente cada retrato,
depois fixou os olhos verdes no que estava à direita e desatou
o riso: "Hi-hi-hi-hi-hi-hi!" O poeta considerou: "Parece
que sua escolha é realmente a mais sensata. Vamos ver no que dá!"
Quando proclamaram
os resultados finais da apuração, o candidato "assinalado"
por Donatello foi fragorosamente derrotado nas urnas. Só então
o poeta juntou dois com dois e concluiu que o bichano tinha o misterioso
dom de rir de quem estava em vias de sofrer algum tipo de revés,
algum desastre.
O tempo provou que tal teoria era bem correta: Donatello riu para o carteiro
- o carteiro foi mordido pelo cão do vizinho; Donatello riu para
o dono da padaria - este teve o seu carro furtado durante a madrugada;
Donatello riu para a samambaia da varanda, esta apanhou uma praga e secou.
"Não! Não" - explicava o poeta à sua Geraldina
- "Não é o gatinho que traz azar; ele é apenas
um profeta felino, um adivinhador do futuro. O nosso Donatello é
um Nostradamus de quatro patas, minha velha!" E a vida foi seguindo...
Adulto, o gato ridente, deu para andar nos telhados, sair em farras, perder-se
em orgias que duravam até o amanhecer. Devagar, mas inexoravelmente,
foi deixando de rir. Perdeu seu dom. O poeta lamentou muito essa perda,
mas Geraldina sentiu-se aliviada. Era-lhe um pouco desconfortável
conviver com um Nostradamus de quatro patas e cauda longa. E a vida continuou
seguindo...
Como não
há ganho sem perda ou perda sem ganho, com o sumiço do riso
profético, Donatello tornou-se mais afetuoso, mais dedicado ao
seu mantenedor. Sempre que o céu noturno se revelava limpo de nuvens,
o poeta e o gato ficavam horas à janela do apartamento; Álvaro
a dizer versos em voz alta e Donatello a contemplar as estrelas do Cruzeiro
do Sul. Aliás, aquela constelação, em particular,
agradava muito ao bichano. E ao dar-se conta daquele misteriosa predileção
astronômica, o poeta achou por bem consultar as enciclopédias,
para então explicar ao gato: "Aquela estrela ali, na ponta
mais alta, é a Gacrux. À esquerda dela está a Pálida
e à direita... a Mimosa. A da ponta de baixo é a Acrux e
aquela pequenininha, Donatello, você nem tem idéia de como
se chama... É a Intrometida! Não é um nome engraçado?
E a vida foi e foi...
Geraldina morreu dormindo. Morreu num sábado e foi enterrada no
domingo, ao cair da tarde. Já estava bem velhinha, a mulher do
poeta... faria 89 anos. Álvaro já passara dos noventa, sentia-se
fraco e sabia que sua hora também não tardaria a chegar.
Ele e o gato preto eram agora inseparáveis.
"Por quê" - indagou o poeta a si mesmo, certa noite de
lua cheia - "não podemos eu e Donatello voar por esse veludo
celeste, entre tantos milhões de estrelas, um gato e seu amigo
humano, duas almas que só têm uma a outra? Por que, meu Deus?
Por quê?"
"Hi-hi-hi-hi-hi-hi-hi-hi!"
- Donaltello pôs-se a rir. Pôs-se a rir outra vez, depois de
anos e anos. Ria sem parar, ria e tremia, comovido, a pelagem negra e sedosa
do peitilho toda molhada de lágrimas, ria e chorava, chorava e ria,
os olhos cansados e cada vez mais verdes, cada vez mais verdes e translúcidos...
Quando
o dia amanheceu, o primeiro raio de sol iluminou o gato Donatello. Ele
estava mudo, de costas para a janela, velando o sono eterno de seu amigo
poeta. Eram seis horas da manhã de um domingo qualquer...
|
|