Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.

Trecho de Perde o gato, de CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE/Foto Monica Botkay

Quando é que passará esta noite interna, o universo, E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar,
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar. Quando é que passará este drama sem teatro ou este teatro sem drama e recolherei à casa? Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos e vida,
Quem tens lá no fundo?
É esse! É esse! Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei; e então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!

ALVARO DE CAMPOS
o gato que r i m a
í n d e x
m a p a