Votar
ou não votar: eis a questãoCAPiTÃO PAUL WATSON http://www.seashepherd.org.br Eu não creio muito na política. Não gosto que me digam que tenho uma chance de mudar o sistema a cada quatro anos com meu voto. Estou cansado de ouvir que não importa em quem eu vote, desde que eu vote. A verdade é que nossa vida selvagem em vias de extinção, nossos oceanos agonizantes, nossa florestas reduzidas não serão salvos por nenhum político. A antropologista Margaret Mead uma vez disse que a mudança apenas vem através das ações de indivíduos apaixonados e comprometidos. Não depende de governos ou instituições resolver qualquer problema social distante de suas realidades. Os oceanos não são protegidos pelas frotas da marinha dos vários países. Governos não detêm o massacre de baleias, de focas, de tubarões, de tartarugas, ou a crescente poluição dos mares. Este trabalho está sendo feito por heróis desconhecidos e grupos abnegados que não desejam esperar por uma ação institucional que nunca virá. No Havaí, o lojista Ken Nichols resgata tartarugas feridas por linhas de pesca. Em Washington, a membro da tribo Makah Alberta Thompson luta em defesa das baleias apesar da perseguição de seu próprio conselho tribal. Na Califórnia, o surfista Peter Wallerstein resgata leões marinhos presos em redes de pesca. Por causa do biólogo David Wingate, algumas espécies de aves das Bermudas são salvas da extinção. Verdadeiramente, esforços ativos pela preservação ocorrem no mundo inteiro. Nos últimos três meses, no Brasil, Alexandre Castro salva aves dos derramamentos de óleo. Nas praias da Normandia, Sascha Regmann tem cuidadosamente limpado óleo cru de pássaros, expondo a si mesma a produtos tóxicos. Na mar de Marmara, o conservacionista Erkan Sevdiren socorre aves envenenadas por um recente derramamento de óleo. A lista está crescendo. Acadêmicos como Paul Spong, Roger Payne, Sylvia Earle, David Lavigne, David Suzuki, Jim Darling e outros falam mais alto e mais forte. Artistas como Christian Reese Lassen, George Summer e Bob Talbot, e diretores como Peter Brown, Jeff Pantukhoff e outros sensibilizam mais e mais pessoas que começam a entender que a natureza é a maior expressão do talento artístico. Celebridades como Pierce Brosnan, Martin Sheen, Steven Seagal e muitos outros usam seu status em benefício da proteção marinha. Diretores como Dick Donner, Lauren Shuler-Donner e John Badham fazem filmes que mudam a consciência das pessoas em favor da ecologia. Em redor do mundo, milhares de surfistas, observadores de baleias, naturalistas
e conservacionistas não remunerados percorrem o caminho, não
apenas falando sobre ele. Eles salvam vidas, protegem habitats e enfrentam
os Golias industriais e corporativos. Hoje, quando sento num bote inflável e centenas de baleias emergem e agitam-se ao redor, entendo o que motiva indivíduos a agir, mesmo dando suas vidas, pela preservação da natureza e da vida selvagem. Se não fosse por Dian Fossey, os gorilas das montanhas de Ruanda estariam extintos. Se não fosse por Karen Silkwood, a corrupção da indústria nuclear nunca seria descoberta. Se não fosse por Joy e George Adamson, os leões do leste da África poderiam não ser protegidos como agora estão. Se não fosse por Chico Mendes, a preocupação com as florestas não seria tão grande como se tornou. Todos esses heróis foram assassinados por sua paixão e compaixão. Eles não correram para escritórios, mas todos deram contribuições mais significativas para um mundo melhor do que qualquer político seria capaz. Todos indivíduos. Margaret Mead estava certa: aí é onde as mudanças começam. E todos nós temos a capacidade dentro de nós de fazer a diferença, para fazer deste um mundo melhor, onde baleias vivam livres para percorrer os mares, onde tubarões possam nadar sem serem molestados, onde tartarugas não precisem ter suas nadadeiras amputadas por causa de linhas de pesca, onde os peixes apareçam em números fantásticos outra vez, e onde possamos ver de novo a imagem de golfinhos afastando-se para o horizonte. O que podemos fazer? Muito. Podemos despertar a força de nossas mãos simplesmente reunindo confiança e o desejo de fazer diferença. Em 1979, depois que persegui, abalroei e afundei o navio baleeiro pirata Sierra, eu conversava com um membro de minha tripulação nas docas de Lexioes, Portugal. Seu nome era Alex, e ele tinha dezenove anos, um apaixonado vegetariano e amante de animais. Alex estava especialmente indignado com o tratamento de animais de laboratório, e ele queria que eu fizesse algo quanto a isso. _"Alex, eu disse, estou totalmente ocupado com as baleias nesse momento. Por que você não faz algo a respeito?" _"O que posso fazer?", ele perguntou. _"Qualquer coisa que desejar. Apenas lembre que não precisa de um diploma universitário nem permissão de seus pais para mudar o mundo."
Muitas pessoas me escrevem perguntando o que estou fazendo sobre este ou aquele problema. Nunca respondo algo como _"Bolas, já estou ocupado com problemas o bastante." Em vez disso, devolvo a pergunta para saber o que essas pessoas pretendem fazer a respeito. A força de um ecossistema está na diversidade. A força dos movimentos sociais também depende da diversidade de idéias e estratégias que possuem. Isto não significa dizer que todos devam sair e perseguir navios baleeiros, defender árvores ou estrangular executivos da Exxon. Para fazer a diferença, precisamos apenas canalizar nossas habilidades únicas e pessoais, talentos e recursos para o objetivo de melhorar este mundo. A ação pode ser jurídica, artística, educacional, legislativa, ou ação direta. A abordagem pode ser radical ou moderada. O que importa é o envolvimento, a intenção. Faça o que fizer, não apenas por seus próprios interesses, mas pelo bem comum do planeta. Não pergunte: _"O que isto vai me oferecer?", mas: _"Como posso fazer deste um mundo mais são e feliz?" Eu sei que a satisfação que obtive protegendo a vida marinha nos oceanos excedeu qualquer coisa que pudesse encontrar na religião ou na arte. Não posso pensar em algo mais nobre que ter dedicado minha vida à conservação da natureza e da vida. Saber que uma espécie vai sobreviver porque atuei é uma satisfação indescritível a menos que seja experimentada. É até melhor que votar... Primavera de 2000
|