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Gatos continuam a ser os vilões
do cinema
Desde Disney até "Stuart Little",
filmes e desenhos
mostram imagem cruel dos felinos
RUY CASTRO, para O Estado de São Paulo
Em mais um soez,
solerte e insidioso filme em cartaz, destinado às crianças,
os gatos voltam a ser tratados como vilões. O filme é O Pequeno
Stuart Little (título brasileiro criado por algum fã analfabeto
dos Irmãos Brothers). O herói é um rato não muito diferente do Topo
Giggio, de infecta memória, e os gatos em cena passam o filme tramando
contra ele - até a vitória final do rato, com a punição e submissão
dos gatos. Onde foi que você já viu essa história? Em, literalmente,
milhares de outros filmes, desenhos animados e histórias em quadrinhos.
Você já a viu em todos
os desenhos de Frajola e Piu-Piu a que assistiu. Neles,
Frajola é sempre mostrado como um gato malévolo e burro, cujo único
objetivo na vida, o de comer Piu-Piu, frustra-se a cada tentativa
pela suposta inteligência superior do canário. Frajola e Piu-Piu,
que já existiam separadamente no cinema, foram acoplados em 1949
por um desenhista da Warner Bros., Friz Freleng. Ou seja, há 51
anos as crianças do mundo inteiro vêm sendo ensinadas que, mesmo
prevalecendo-se de seu tamanho, força e agilidade para atacar um
tíbio canário, os gatos não passam de uns grandes palermas.
Mas seria o canário
assim tão tíbio? Nos 41 desenhos de Frajola e Piu-Piu criados
por Freleng de 1949 a 1964 (e exibidos dia e noite pela televisão,
até hoje, dando a impressão de que foram centenas), há algo mais
por trás da aparente infantilidade do herói ("Eu acho que vi
um gatinho"). Na verdade, Piu-Piu é um cínico e um sádico.
Os desenhos o mostram invariavelmente equipado com recursos para
fuzilar, retalhar, esmagar, picotar e achatar Frajola - e isso é
considerado ético pelos desenhos animados, nos quais o "mais
fraco" sempre derrota o "mais forte". Mas Piu-Piu
(cuja popularidade foi reativada há pouco pela Warner, que o estampou
mundialmente em camisetas, jaquetas, meias, tênis, adesivos e bonecos)
não é o único personagem de uma campanha que ajuda a diminuir, humilhar
e provocar um desapreço das crianças pelos gatos.
O rato Jerry, da dupla Tom e Jerry,
talvez seja ainda pior. Sozinho ou com seu assecla, o camundongo
Espeto, Jerry torturou o honesto, sincero e crédulo gato Tom em
nada menos que 160 desenhos para o cinema, de 1940 a 1967. Os criadores
da dupla foram Bill Hanna e Joe Barbera (aliás, responsáveis também
pelo empobrecimento do desenho animado com a técnica de "animação
simplificada", que inventaram quando passaram a produzir para
a televisão nos anos 60). Os últimos desenhos já foram delegados
por Hanna e Barbera a bagrinhos, mas o conceito inicial da série
nunca se alterou; ao tentar proteger sua casa da presença do parasitário
e nojento Jerry, Tom é eletrocutado na tomada, incendiado na lareira,
afogado na pia, esmagado por pianos e explodido através do teto.
Meninos insensíveis e perversos assistem a isso dando risotas diante
da TV - e provavelmente tentam repetir tal violência com seus próprios
gatos.
Não há gatos heróis
nesses potentes formadores de opinião, que são os desenhos
animados. Os heróis são sempre os cachorros, os coelhos, os patos
e, incrível, principalmente um rato mudo que não faz um filme há
47 anos e, mesmo assim, continua a ser símbolo de um império desenhístico
- você já ouviu o som da voz de Mickey Mouse alguma vez? O próprio
Walt Disney (na vida real, racista e anti-semita, mas sempre cioso
de que seu estúdio não ofendesse ninguém) não conseguia esconder
o preconceito: em seus filmes, o cachorro é o animal nobre (vide
A Dama e o Vagabundo e 101 Dálmatas, para não falar dos 44 desenhos
de Pluto e os 42 de Pateta feitos entre 1940 e 1965). Nada contra
isso e Walt podia gostar dos animais que quisesse. Acontece que
quase todos os seus desenhos mais famosos são também violentamente
antigatos.
Em Pinóquio, um dos
vilões é um gato debilóide e imundo chamado Gideão, que
ajuda a raposa João Honesto a engambelar o boneco. Em Cinderela,
o gato Lúcifer, gordo e traiçoeiro, é uma assustadora ameaça aos
ratos Gus e Jaq.
Em Alice no País das Maravilhas,
o gato Cheshire está longe de ser um personagem simpático -
sabe que Alice vai se estrepar e não faz nada para impedir. Em A
Dama e o Vagabundo, Si e Ao são os dois siameses que destroem as
cortinas, atacam o canário e o peixinho dourado e investem contra
o bebê da família, provocando a confusão que mandará Lady para a
carrocinha. Em A Espada Era a Lei, a bruxa Madame Min transforma-se,
claro, num gato parecido com ela. E, mesmo em Os Aristogatas, que
deveria ser um filme pró-gatos, há em cena um punhado de gatos vadios
e desagradáveis, sendo que o herói acaba sendo, na verdade, um rato
chamado Roquefort. E é bom lembrar que, no primeiríssimo desenho
de Mickey, Steamboat Willie, de 1926, ele tortura e executa um gato
girando-o pela cauda e atirando-o ao mar. Pensando bem, Disney não
podia mesmo gostar de gatos - ficou rico construindo ratoeiras humanas
como a Disneylândia e a Disney World.
Mas não sejamos injustos
com os desenhos animados. É o cinema em geral que nunca
teve uso para os gatos - exceto para mostrá-los como aliados de
bruxarias (o gato de Kim Novak em Sortilégio de Amor), símbolos
de decadência (o gato na abertura de Pelos Bairros do Vício), sinônimo
de neurose (Elizabeth Taylor, Maggie the Cat, em Gata em Teto de
Zinco Quente) e instrumentos de vingança (as várias versões de O
Gato Preto). Mesmo num filme em que os gatos nada têm a ver com
o peixe, como Babe, o Porquinho Trapalhão, um deles é mostrado num
papel negativo - e olhe que o herói é um porco.
É normal que o cinema
nunca tenha feito pelos gatos o que fez por incontáveis cachorros,
desde Lassie e Rin-Tin-Tin; gatos recusam-se a ser atores e é impossível
treiná-los para fazer coisas que cachorros, focas e até elefantes
aceitam com a maior naturalidade, como trepar em banquinhos, dar
cambalhotas ou equilibrar bolas no nariz - a inteligência, dignidade
e independência dos gatos não lhes permite prestar-se a esses papéis
humilhantes. Só é possível fazer um filme como O Pequeno (sic) Stuart
Little, em que os gatos parecem "fazer" coisas, filmando-os
ao natural e adequando as cenas ao roteiro, quando não alterando-as
eletronicamente.
O preconceito antigatos
já chegou também à publicidade e à televisão. Há pouco
mais de dois anos, um comercial da Light sobre a sua campanha contra
os "gatos" (os fios que os espertos puxam ilegalmente
dos postes públicos) mostrava um bando de cães assassinos farejando
becos e vielas, como se procurassem gatos de verdade. A trilha sonora
era uma cacofonia de uivos e rosnados, de inenarrável brutalidade.
Pensei na bestial satisfação dos donos desses cães ferozes ao assistir
ao comercial: deviam ter ganas de sair com suas feras pelas ruas,
em busca de gatos de verdade, como se estivessem contribuindo para
o extermínio de uma praga. Na França, um comercial desses seria
impensável. Nos EUA, ele talvez fosse concebível, mas não ficaria
dois dias no ar - várias sociedades se mobilizariam para protestar
contra o estímulo à selvageria e à perseguição de um animal por
outro.
No lado positivo, gato,
como se sabe, é uma palavra também usada no sentido do
homem charmoso e atraente, que as mulheres desejam. Quem manifesta
esse rancor a gatos no cinema, nos quadrinhos ou nos comerciais
deve ser alguém a quem uma mulher nunca chamou de gato. E, antes
que me esqueça, morte ao Piu-Piu.
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