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Gato Yo Mangani
Gatinho Pokemon
O gato que roubava dólares
Adeus. Olá
Príncipe Pirata
Gato com estilo
Naomi, Babe
Super Gata Carolina


Graças à Carolina minha Vó teve 14 gatos e conta a história de todos eles como de velhos amigos que se foram. Da Gata Carolina ela fala com lágrimas nos olhos como quem fala de uma filha muito querida. Carolina é uma lenda em minha família e não há um só descendente do Sr. Manoel Barroso que não a conheça. Agora apresento Carolina a vocês. Minha avó tinha um armazém na Vila Carrão-SP, quase uma chácara. Ela não gostava de gatos: eles roubam o fôlego, atacam crianças, transmitem asma, têm parte com o coisa-ruim, etc, etc.

Um dia apareceu no quintal uma gata descrita como a gata mais feia do mundo: cheia de cicatrizes, adulta mas mirrada, magrela, uma coisinha tricolor fuzenta... sim, selvagem a bichinha! Minha mãe, com seus 5-6 anos, já adorando tudo que é ser peludo vivente, começou a deixar comida para atrair a gata e a batizou de Carolina. Minha Vó aceitou a bichana já que minha mãe, responsável, cuidava da bichinha. Além disso apareceram ratos no armazém e Carolina era uma caçadora implacável.

Aos poucos Carolina conquistou a Vó... e de manhã lá iam as duas pro armazém, a Vó seguida pela fiel Carolina. A espertissima gata logo aprendeu que só a Vó podia mexer no balcão.
A Vó se afastava e Carolina pulava no balcão, a andar de um lado pra outro, o rabo finissimo bem espetado, imponente como diz Dona Ramona... e se alguém tentasse tirar qualquer coisa do balcão, fúúúúúúúú, coitado dele, patada na certa! Minha Vó ria a valer com os clientes enquanto eles tentavam enganar a Carolina e tocar no balcão.

Carolina morreu de velha sem nunca ter deixado de seguir minha Vó pro armazém, sem nunca ter sido enganada no balcão, rápida e destemida até o final. Essa é só uma das histórias que minha Vó e minha mãe contam dela.

Passei muitos domingos felizes ouvindo histórias da Carolina. Depois do almoço minha Vó arrumava a cozinha sob o olhar dos 5 netos que ouviam hipnotizados as histórias da Gata Carolina e seus filhinhos.

Não cheguei a conhecer Carolina, mas as descrições da minha mãe e avó são tão vívidas que a imagino com perfeição: magrinha, mirrada, tricolor com o amarelo bem forte e uma bola preta nos olhos como máscara de bandido.
Os filhos dela viveram muitos anos com minha Vó. Chaninho, petibanco manhoso, gato grande, gordo, inteligente, obedecia ao chamado e aprendia muitas coisas, morava dentro de casa e morreu já bem velho, meio ceguinho. Pelé, preto brilhante, safado, matador imbatível de ratazanas, passeador de telhados, indomável, odiado pelos vizinhos que gritavam que aquele era o próprio coisa ruim. Pelé era musculoso mas pequeno como sua mãe.

O que leva a outra história da gata Carolina, essa da mãe coragem. Como eu disse, Pelé era unanimidade entre os vizinhos, todos o detestavam. Só encontrava o amor na casa da minha Vó e adorava minha mãe, único ser humano que tinha permissão de tocá-lo.

Um dia um vizinho truculento, sargento do exército, furioso com o Gato Pelé, entrou no armazem dizendo que agora aquele filho de demonio não iria viver nem mais um dia. Trazia seu cão pastor, enorme, temível, que atiçou em cima do gato que dormia em cima das sacas de farinha do armazem.

De repente um ganido de dor, ganido mesmo, minha Vó mal viu o relampago tricolor saltar sobre o cão que avançava rosnando em direção ao Pelé... só viu o cão ganindo e se debatendo com uma enfurecida Carolina no seu focinho, firmemente grudada com suas garras, enquanto bufafa e detonava a cara do cão. O cachorro desesperado corria com o estranho adereço de gato grudado na cabeça, seguido pelo dono que gritava: "Alguém salve o Rex tira essa coisa dele!" E minha Vó: "Carolina, vem cá, solta ela cachorro malvado". Foi uma corrida de 3 quadras, até que Carolina soltou do cachorro e pulou no colo da minha Vó, com o rabo parecendo uma escovinha de tão grosso, e pose de quem diz: mostrei a ele, mamãe.

Minha Vó nunca mais deixou Pelé no armazém com medo que outros doidos fizessem maldades contra ele.
Pelé morreu muitos anos depois atropelado em frente de casa. Enquanto Carolina viveu nunca mais deixou um cão entrar em seu armazém. Era temida e odiada por todos os cães da região, que a ouviam bufar do balcão quando se aproximavam.

O dono do Rex ficou fulo da vida com minha Vó e veio reclamar no dia seguinte. Meu avô riu na cara dele e disse: "A culpa foi sua! Se perturbar ou voltar aqui eu solto a Carolina em cima de você!"
Seja por medo da ameaça ou pelas risadas dos outros fregueses, o cara nunca mais entrou no armazém.

Uma das histórias da Carolina até parece coisa de Disaster Movies... Minha Vó amava profundamente a Carolina e naquela época era raro levar um gato ao vet. Tudo que a espanhola mais queria era que Carolina tivesse uma ninhada...

Mas a Carolina era uma gata mirrada, tinha o tamanho de um gatinho de 6 meses. Talvez fosse conseqüência do abandono nos primeiros anos de vida e ninguém sabia a idade dela quando entrou pra família. Carolina namorava, passava a noite fora, engravidava, mas pra tristeza geral seus filhinhos sobreviviam poucas horas apenas, pequenos e fraquinhos.

Naquele tempo nem se cogitava em castrar um gato. Carolina teve muitas gestações infelizes, até que na ultima vez nasceu uma ninhada saudável, que a arisca mamãe escondeu entre os fardos de alfafa (não riam, naquela época o meio de transporte mais freqüente no Carrão era o cavalo, e meu avô tinha o dele). Tudo ia bem, só que os gatinhos não pareciam em nada com sua mamãe.

Uma noite todos acordam assustados: o depósito do armazém estava em chamas. Em meio à confusão Carolina corria enlouquecida, miando desesperada, entrando e saindo do prédio, acompanhada pelos gritos de minha Vó: "Taico os filhinhos da Carolina estão no depósito, temos que tirá-los de lá!"

Meu tio desesperado segue Carolina até os montes de alfafa que começavam a incendiar, e no centro, onde os fardos formavam uma caverninha, viu a gata desaparecer e depois tentar escalar as paredes com um filhote na boca, sem conseguir... Logo ela, tão corajosa e ágil, tomada pelo medo não conseguia tirar seus filhinhos da casinha que lhes preparara. Meu tio pegou os gatinhos e correu pra fora do armazem seguido pela Carolina.

Minha Vó levou Carolina e filhinhos pra casa e tentou consolar a gata do enorme susto. Mas da ninhada, talvez intoxicados pela fumaça, uma menininha e um menininho morreram. Dois sobreviveram: dois rapazes, um preto e branco e um pretinho até o último pêlo. Minha Vó os batizou Pelé e Chaninho, dos quais sei muitas histórias. Carolina nunca mais engravidou.