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Tinha fama de difícil e eu tampouco sou fácil. Fazia
um mês que ela estava diferente, bem humorada, conversava
e brincava com todas nós. Nós era um grupo de discussão
pela internet formado exclusivamente por gente que ama e convive
com gatos.
Esse foi o ultimo email que recebi dela:
Leiloca
Aqui os bebês vivem com Friskies e jornal em vez de granulado
sanitário.... amor tem muito, mas dinheiro falta, sabe
como é? E 12 gatos e um cachorro e mais 3 pessoas num
apartamento-apertamento de menos de 50m² de área
útil... Eu tenho que ficar me consolando dizendo que
na rua eles teriam morrido, e que se eu arrumasse dono teria
um outro gatinho a ficar sem casa... mas eu não acho
que seja o melhor dos mundos pra eles não... Mas se eu
pudesse..... acho que tinha uns 50 de novo!!!
Pé maluca |
Deixei para responder no dia seguinte. Queria responder direito,
uma coisa legal que valesse a pena ler. Inútil. Quando abri
a caixa de mails de manhã li:
CAROS AMiGOS ELETRONiCOS
DA PEROLA
Infelizmente informamos que ela faleceu dia 14/08/2001. Por
Favor as mensagens destinadas a ela enviem para ... |
Ela se matou. Era quarta feira de manhã. À noite
eu e Zeca fomos dar uma volta. Passávamos por uma rua escura
e de repente saiu de uma moita de plantas, daquelas com espinhos
e pequenas flores vermelhas, um gato grande, cinza rajado de preto,
num salto atravessou nossa frente e desapareceu antes de tocar no
chão. Eu perguntei ao Zeca se ele havia visto alguma coisa
e ele disse sim, um gato que sumiu no ar. Adeus Pérola, eu
pensei...
Sábado passamos pela mesma rua, íamos jantar, ouvimos
um miado. Vinha do meio fio da calçada. Debaixo de um carro
estacionado tinha um gatinho. Ele veio na nossa direção.
Era um tigrinho cinza de nariz preto, bem pequeninho. Parte de sua
cauda estava seca, necrosada, amarrada por um barbante apertado.
Corremos para o veterinário 24 horas. Além da cauda
machucada tinha as quatro patas muito arranhadas como se tivesse
corrido entre arame farpado ou espinheiros. No veterinário
vimos que não era menino. Era uma gata.
Foi adotada por um cara super legal, o Daniel. Seu nome agora é
Cleo. Tem que ser gata única: meiga com as pessoas, não
tolera a companhia da sua própria espécie.
Em outubro de 2004, o viuvo mandou o recado simpático de
que iria mandar os gatos dela para o CCZ por que estava de saco
cheio de cuidar de gatos. Escrevi para todo o mundo gateiro da internet.
E apareceu uma chance maravilhosa para os gatinhos da Pérola
que sobreviveram aos maus tratos nos 3 anos de sua ausencia. Eram
12, ficaram 8. Fui lá buscar os gatos num domingo frio de
chuva. Eles choraram muito na viagem, mas sei que ficaram muito
bem: duas pessoas maravilhosas adotaram todos os 8 gatinhos.
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