
Era uma noite escura de tempestade. Eu trabalhava no computador quando
ouvi o miado alto e fino de um gatinho bebê na rua. Desci para
ver, o bichinho estava embaixo dos carros estacionados na calçada.
Não teve jeito de pegá-lo. Fui em casa e voltei com
presunto, leite, carne moída. Ele devorava tudo sem me deixar
chegar perto. Tinha cerca de 2 meses. Com toda razão detestava
gente. Só um filho da puta abandona um bicho assim, ainda mais
numa noite de chuva. O gatinho
fugia por baixo dos carros estacionados, corria perigo de verdade.
Levei minha gata Leonora pra ajudar a pegar o bichinho. Já
amanhecia. Deu certo. Quando ele viu a Leonora correu pra junto dela
e eu o peguei. Com o tempo passou a gostar de nós. Com reservas,
claro. Detesta qualquer movimento brusco. 
É um gato-lince enorme, peludíssimo, finíssimo. Um
skogg kat carioca, da Ilha do Governador. Não briga com os
outros gatos: uma só patada firme na testa do inimigo resolve
qualquer questão. Em silêncio, enquanto eu pensava
que ele era só um bebê inocente de 5 meses, engravidou
duas gatas adultas sem que se ouvisse um só miado mais alto
na casa. Poki sempre sabe o que os outros sentem e detesta grosseria.
Se fosse uma pessoa seria um inglês daqueles que caçam marrecos
e perdizes de vez em quando para o jantar. Teria roupas lindas,
confortáveis e meio gastas, só porque mandaria o mordomo
vesti-las até que perdessem o ar de domingo de festa no interior. |